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Coleção X

Espero que você viva "X" para experimentar a espécie de sono criador que se espreguiça através das veias. "X" não é bom nem ruim. Sempre independente. Mas só acontece para o que tem corpo. Embora imaterial, precisa do corpo nosso e do corpo da coisa. Há objetos que são esse mistério total do "X". como o que vibra mudo. Os instantes são estilhaços de "X" espocando sem parar.

Clarice Lispector

     A Coleção X, sob a coordenação do professor Rafael Haddock-Lobo, pretende reunir obras que reflitam a potência filosófica dos cruzamentos, seja através do encontro entre filósofos, entre a filosofia e outras áreas do saber ou das encruzilhadas que se anunciam silenciosamente no coração de cada teoria filosófica.

     O “X”, que designa o impossível, o incalculável, o inefável, anunciado na forma do “algo geral = x” da Crítica da Razão Pura de Kant, o “X” para nós inacessível e indefinível como indica Nietzsche em Verdade e Mentira..., a lógica do “X sem X” da desconstrução de Derrida, sempre se marcou nas teorias filosóficas para indicar aquilo de que não se pode falar.

     Porém, quando Derrida se refere ao “encontro no coração do quiasma” para falar de sua relação com Lévinas, ele traz à cena a encruzilhada grega que marca não apenas os corações, mas a própria ética e a própria política: certamente o quiasma se faz marcar desde a encruzilhada na qual Édipo encontra seu destino, mas mais aquém. O X das encruzilhadas se marca desde a África subsaariana, regida por Esù, por Pambu ia-njila, por Aluvaiá, por Legbá, e que no novo mundo ganham a regência de Eleguá, Légua, Petró, Maitre Carrefour e dos exus, pombagiras e malandros brasileiros.

     Guardiões dos cruzamentos de saberes, dos caminhos de pensamentos e comunicadores de encantos, as forças que habitam X se marcam e se mostram em cada teoria filosófica, mais explícitos em alguns textos ou na lei do mansinho, como diz Riobaldo, em outros. Esta força que habita X, que se mostra em cada cruzo e que se deixa representar, mesmo que de modo fugidio, pela própria forma da letra X, não se marca apenas na teoria, na ética ou na política.

     Seja na forma do encontro querido ou do versus da polêmica, X, que é sempre tensão, transborda em diversas referências dentro e fora da academia: desde o X que substitui os marcadores de gênero na linguagem escrita ao tão acessado X vídeos; desde as incógnitas matemáticas de qualquer equação ou da experiência de si impronunciável sobre a qual escreve Clarice até fenômenos da cultura popular como X-men ou Madame X e a todos os saberes produzidos nos bares nas esquinas desse país.

     É disso que X trata. É de tudo isso que a Coleção X tratará.

Rafael Haddock-Lobo

Organizador da Coleção X

Volume 3 - Filosofia da ancestralidade
Volume 3 - Filosofia da ancestralidade

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Volume 2 - A ancestralidade na encruzilhada
Volume 2 - A ancestralidade na encruzilhada

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Por uma ética severina
Por uma ética severina

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Volume 3 - Filosofia da ancestralidade
Volume 3 - Filosofia da ancestralidade

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“Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho
Mas eu vim de lá, pequenininho
Alguém me avisou
Pra pisar neste chão devagarinho”

A ética dos pés que Dona Ivone Lara ensina adverte-me aqui que é com a cabeça baixa que preciso adentrar nos mistérios que a sabedoria de um grande filósofo como Eduardo Oliveira me lega.
Sendo um dos maiores nomes da filosofia brasileira, adjetivamente brasileira como dizia Gerd Bornheim, sobretudo pela unidade (na multiplicidade) teórica que sua Obra apresenta, Duda parece escrever com os pés, como os caboclos que, segundo o ponto, não têm caminho pra caminhar e que, por isso, “caminha por cima das folhas, por baixo das folhas, por todo lugar”.
Não tendo direção prévia, a não ser a que sua ancestralidade lhe legara, Duda, na construção desta Trilogia da ancestralidade, abre seus próprios caminhos, trilhando vias que podem nos levar a lugares que, antes, a filosofia (ocidental) nunca poderia imaginar.
Também, como nos ensinam os encantados das florestas brasileiras, se “pra pisar na folha da macaia tem de saber pisar, se não pisar direito você vai escorregar”, com a escrita apresentada nesse triplo gesto de encantamento, Duda pisa de modo certeiro nas folhas da Jurema que o vento soprou nas matas. “Ele pisa firme, balanceia e sai andando”. E o vento vai soprando, as folhas vão caindo, e ele, recolhendo-as cuidadosamente, nos oferece sua beleza em forma de texto.
Com seus pés descalços no chão, o filósofo da ancestralidade, com seus ensaios de filosofia africana, firma seu ponto riscado e escreve ora com o pilão, ora com o ofá, com o abebé, com a espada, o oxé, o ibiri, o opelê, o opon ou o ogó, entre tantas ferramentas de escritura que lhe são ofertadas pelos que lhe antecederam. E isso, com um estilo que consegue aliar afeto, didática e complexidade.
Caboclado, Duda parece, pelo menos a mim pareceu, nos convidar: “pisa na minha aldeia, caboclo, pisa mas não bambeia”. Sua escrita encantada nos convida ao caboclamento, mas a advertência do convite, que Duda nos faz para pisar nessa aldeia de filosofias e afetos que é a trilogia da ancestralidade, a de que não podemos bambear, nos remete ao imperativo de Dona Ivone: devemos entrar nessa aldeia como quem entra, pela primeira vez, nas matas, guiados por quem veio antes e que sabe onde cada passo precisa ser dado para que o encanto não se assuste e, de nós, saia correndo para sua toca.
Viva a ancestralidade! Viva Duda!

Rafael Haddock-Lobo