Às vésperas da defesa que marcou o coroamento desse trabalho fundamental para os nossos dias, Marielle Franco e Anderson Gomes eram assassinados. No caminho ao aeroporto para minha participação na banca na Universidade Federal de Uberlândia, passo pela Cinelândia lotada por manifestantes, protestando diante desse terrível fato. Quis descer e, lá, com eles, mostrar meu assombro e minha revolta. Percebi então que estava eu também a caminho de um ato público, em que uma mulher preta iria defender sua pesquisa que trata, justamente, do genocídio do povo preto. Tinha de ir, é claro. Quando, apenas lá, no dia e nos momentos que antecederam a defesa, pude entender a dimensão daquele evento. Da mesa da sala de defesa, cuidadosamente preparada por Lorena, florescia um perfume amarelo que antecipava a emoção que se somaria à seriedade e ao rigor da defesa. “São lágrimas de Oxum aiêiê, pedindo a Zambi pra seus filhos abençoar”. Todos se emocionavam, a autora, a orientadora, os orientadores anteriores, os membros da banca, o público. A presença da mãe das águas doces se marcava para refrear as lágrimas que precisavam às vezes ser contidas, pois era só disso que ali se falava: dor, sofrimento, pavor – e da coragem de uma pesquisadora que falava de si todo o tempo. Falava de si não como a escrita acadêmica escamoteia através da neutralidade, mas falava de si através do outro, pois quando Lorena fala do assassinato de seu povo, quando seus dedos trabalham as teclas de sua escrita, é sua pele escura que digita o horror, o horror. E assim começa esse livro, resultante da dissertação indicada ao Prêmio Filósofas: ele se abre com a mojuba de Lorena, mostrando seu humilde respeito à ancestralidade que lhe guiou e lhe guia em suas escritas, marcada pelos conselhos e puxões de orelha dos vovôs e vovós, pela flecha de Oxóssi que lhe aponta os caminhos e pelos ventos de Iansã, que lhe levam pelo mundo. Essa força ancestral é o que não deixa Lorena enfraquecer e a faz persistir em sua caminhada, na tarefa de falar de outros que são também ela. Muito se fala hoje em Biopolítica e Necropolítica, a ponto de virarem jargões que podem ser facilmente digeridos sem a atenção criteriosa necessária, mas precisamos de mais que isso. E é por essa razão que esse livro, precisa ser lido. Rafael Haddock-Lobo

[eBook] Racismo de Estado e suas vias para fazer morrer

REF: 978-65-86657-35-8
R$11,00Preço
  • Editora: Ape'Ku Editora

    ISBN: 978-65-86657-35-8

    Ano de edição: 2020

    Distribuidora: Ape'Ku Editora

    Número de páginas: 150

    Formato do livro: .MOBI

    Número da edição: 1

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