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Entrevista com Amiel Vieira



De 15 até 20 de julho, o documentário Amiel estará em exibição no 15º Festival Internacional de cine LesBiGayTrans, que ocorrerá em Assunção, no Paraguay.


Comemorando a seleção para o evento, solicitamos ao próprio Amiel que nos contasse um pouco de como sentiu a experiência de ver sua história contata nas telas. Confira abaixo sua contribuição!









Amiel Modesto Vieira


Quando recebi a proposta em 2017 sobre um documentário que colocasse a intersexualidade na tela, fiquei feliz. Até então o Brasil só conheceu a intersexualidade pela fala de Roberta Close que em 1984 declarou a imprensa que era intersexo e depois com a personagem interpretada pela atriz Maria Luiza Mendonça (Buba) de Renascer novela de Benedito Rui Barbosa. Seja em 84 ou 93, época que Buba chegou as TVs, éramos vistos com estranheza e medo, além de curiosidade afinal a ideia sexualizante de dois sexos num corpo era de despertar a imaginação de muitos. A ojeriza a personagem chegou até a se transformar em xingamento, vai lá o Hemarfrodita.



Nada mais do que justo em 2018 de falar sobre a intersexualidade em um momento de recente ativismo no país. Uma coisa é falar do movimento, outra é falar de si. Ao conversar com minha orientadora na época Professora Maria Clara Dias e Ape’ku Produções, ficou decidido que era necessário dar vida e voz a luta intersexo e por mais que doesse, decidi por em tela a minha história. Tudo ainda é muito recente, mas a necessidade de tornar público a causa, passa pela verdade nua e crua da história na esperança de que com minha voz possa contribuir para que estórias como a minha não se repita com crianças como eu e seus pais.


A equipe foi primorosa e cuidadosa com o que colocar diante da tela, decidindo , por exemplo, preservar minha família dos fatos elencados. Além disso era preciso pensar no poder médico e suas práticas que se materializara em meu corpo e era necessário materializar na forma dos registros prontuariais, trazendo a voz ativa da decisão médica como ator e interventor no caso. Até julho do ano passado, eu só havia lido 15 páginas das mais de 100 que me foram entregues em 2016.



A visita as locações foram momentos importantes e que me reconectaram a partes da minha história que de certa forma isoladas. Inclusive nas situações que envolviam o acesso ao lugar em que morei com meus pais até 2016. Foram momentos de revival e um pouco de tensão, bem contornadas por nós, mas ao mesmo tempo além da tensão havia memórias de dor , inclusive ao ler o prontuário e as páginas restantes dele que revelaram outras situações importantes que foram apresentadas no vídeo. O fato aterrador da falta de comunicação das reais descobertas médicas ao meu respeito com meus pais, além do chocante fato de uma gonadotectomia feita sem meu consentimento.



Por mais carregado de dor e de desamparo que seja a minha história, o documentário que chega até vocês, traz a realidade nua e crua das pessoas intersexo de genitália ambígua. Além de ser uma elucidação e apresentação do meu caso é um alerta a sociedade e as organizações de direitos humanos para atentarem ao direito à integridade corporal e ao acompanhamento em saúde consentido pelo indivíduo intersexo.



A Ape’ku Produções e toda sua equipe estão de parabéns por trazer a realidade dos fatos da intersexualidade de genitália ambígua até o expectador. O exímio cuidado e trabalho de direção e filmagem traz informação, emoção, realidade sem perder seu caráter documental e fílmico. Este trabalho precisa chegar a todas as casas, hospitais, escolas e universidades do país, a fim de propagar a luta intersexo e também de trazer o indivíduo intersexo para o espaço social, lembrando-o que há pessoas como ele lutando e procurando seu lugar no mundo.



Nós não somos mais invisíveis.



#diganaoamutilacaointersexo

#amieldoc






Confira, também, a entrevista que fizemos na estreia do documentário exibido no Canal Futura: http://bit.do/amieldoc

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